quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Guia prático da discussão saudável


Neste texto da Sociedade Racionalista há algo como um código de ética do bom debate. Já tinha um tempo que eu queria fazer um texto assim, e essa foi a motivação que faltava. Então, faço aqui um guia sobre debates, sobre quando vale a pena, como se comportar, e porquê entrar em um debate.

- Primeiramente, não se deve entrar num debate para convencer as pessoas. Essa é uma atitude de mentes pequenas. Entramos num debate para trocar informações e opiniões. Convencer a outra parte do seu ponto de vista pode ser uma consequência, mas não um objetivo. Quem entra numa discussão para convencer a outra parte, já entra com a cabeça fechada para ser convencida. O que por si só transforma o debate num bate-boca inútil;
- Num bom debate, se discutem idéias, não pessoas. Deixem os egos de lado, e atenham-se as informações trocadas. Quando se começam a usar pessoalidades (do tipo "eu trabalho com isso", "eu me graduei nesse assunto", "você é de outro ramo, como pode querer discutir isso comigo que sou da área", entre outras falácias e besteiras do tipo), é hora de repensar o que te faz debater;
- Não importa o quão estapafúrdias as idéias que lhe foram apresentadas possam soar, você deve respeitar as idéias até apresentar argumentos que as derrubem. Da mesma forma, abandone as idéias que já foram derrubadas. Não importa se aquilo era uma verdade incontestável pra você desde sua mais tenra infância, se a razão lhe mostrou que você estava errado, reconheça os fatos. Isso não te diminui, não te ofende e nem te humilha, mas te torna mais sábio;
- Suas idéias estão sendo debatidas. Então, aproveite a oportunidade de testá-las, expondo-as ao risco de serem desmentidas. Não se apegue a elas, elas podem apanhar e morrer, ou podem bater e vencer. Mas não trapaceie. Não invente informações só para fortalecer seu ponto de vista;
- Todos os lados do debate podem discordar de muita coisa, mas todo debate deve começar partindo do ponto de convergência. As premissas devem ser aceitas. Por exemplo, é inútil discutir "Quem foi o maior jogador de todos os tempos, Pelé ou Maradona?" se uma das partes acha que na verdade o melhor foi Crüijff. Ou discutir sobre como acabar com a fome na África se um dos lados não reconhece que há fome na África. Nestes casos, mude a discussão para, por exemplo: "Existe fome na África?". E somente após haver um consenso (supondo que agora os dois lados concordam que há fome na África), é que se deve discutir como acabar com ela;
- Seja objetivo. Usar rodeios e verborragia para fazer seu argumento parecer mais bem elaborado do que realmente é é uma das formas de trapacear no debate, mesmo quando não é intencional. Então evite apresentar informações que não sejam realmente necessárias para respaldar seu argumento;
- É você quem está debatendo, não quem concorda com você. Dizer que você está certo porque Fulano também disse isso não prova nada, já que Fulano também poderia estar errado. Aristóteles já acreditou que  uma pedra de 10kg cairia no chão bem antes de uma de 100g. Galileu provou que ele estava errado séculos depois. Quero dizer com isso que toda idéia pode ser derrubada se tiver bons argumentos que sustentem a nova tese, não importa quem defendia a idéia anterior;
- Já que citei Galileu, creio que sua maior contribuição para a humanidade seja a sistematização do método científico, que consiste em pegar uma tese e testá-la para verificar sua consistência. O debate é a experiência das idéias. Então, nada melhor do que expor sua idéia para aqueles que pensam justamente o contrário de você. Se nem eles puderem encontrar falhas no seu raciocínio, sua idéia será considerada correta (até que se prove o contrário - é nisso que consiste o método científico);
- Existe uma técnica de debate conhecida academicamente como reductio ad absurdum, com muitas aplicações, sendo a mais usada delas mais conhecida como reductio ad Hitlerum (recomendo a leitura de ambos artigos)que consiste basicamente de pegar uma idéia e associá-la a algo considerado ruim por todos os lados do debate, para inutilizar a idéia. Exemplos: "Essa sua idéia é a mesa usada pelos nazistas. Você é um nazista!", ou "Isso parece o que aconteceu na ditadura... você é um maldito ditador tirano!", entre outras falácias. Se alguém usar este argumento contra você, só há uma coisa a fazer: 
- Se sua idéia for derrubada, bom pra você, que agora pode aprender algo novo. O debate é proveitoso para  o lado que se mostrou correto, mas muito mais proveitoso para quem estava errado. Nossa sociedade tem o feio hábito de associar o erro ao fracasso, quando na verdade estar errado é ter uma oportunidade de crescimento intelectual. Então, aproveitem essa oportunidade, ao invés de ficar se desesperando para defender um erro como se estivesse defendendo a própria honra e inteligência com isso. Da mesma forma, se comporte adequadamente quando se mostrar certo. Humilhar quem está errado não traz benefício para ninguém, e é contraproducente;
- As únicas ferramentas de um bom debate são argumentos. Alguém com bons argumentos pode te convencer que a Terra é plana se você não tiver informações e argumentos que provem o contrário. Então escolha bem seus argumentos, pois eles podem ser perigosos se mal usados. Então, mantenha-se bem-informado para estar sempre pronto para um bom confronto de pensamentos;
- Lembre-se de todas essas regras, e só discuta com pessoas que também as seguirem. Ninguém precisa de um guia de como se comportar numa discussão, ou pelo menos não deveria precisar. Tudo o que disse aqui está implícito na boa educação, e todos deveriam saber e praticar. Mas humildemente disponibilizo este texto para ser indicado por qualquer um que se envolver numa discussão realmente interessante e não queira abandoná-la porque uma das partes está "quebrando as regras" do bom debate;
- Existem basicamente 3 formas de encerrar de vez um debate: 
  • Uma das partes convenceu a outra através de bons argumentos que não puderam ser refutados;
  • As partes chegaram a pressupostos diferentes, e a discussão não pode continuar;
  • Uma das partes desistiu do debate.
Esteja seguro de que quando a última hipótese acontecer, não seja por culpa sua, pois se for, você não é um bom debatedor. Convencer na base da insistência ou da chatice é uma atitude contraproducente de pessoas chatas. E quando convencer a outra parte, certifique-se de que ela realmente se convenceu, ou simplesmente não aguenta mais ter que enfrentar seu ego defendendo fanaticamente seu ponto de vista.

Enfim, essas são algumas observações que julgo pertinentes para orientar bem qualquer debate, por mais desimportante que seja seu tema. Gostaria muito de receber contribuições de quem venha a ler este texto, dizendo o que poderia melhorar, o que está errado, etc. É um texto um tanto quanto pretensioso e seria contraditório deixá-lo no ar com algo que pode estar errado.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

O brasileiro não é tão diferente assim

Há muito tempo que eu costumo dizer que essa coisa de falar que o mal do Brasil é o brasileiro é besteira de gente manipulada. É bem verdade que se compararmos o brasileiro com os franceses e os argentinos, por exemplo, perdemos feio em relação a reatividade e organização (principalmente organização). Mas isso não faz com que sejamos esse saco de batatas como gostam de dizer por aí. Mas há uma pequena diferença no tratamento dado pelos nossos "jornalistas". Aqui, quando há um setor da sociedade insatisfeito, a mídia logo dá um jeito de tirar a razão dos manifestantes, chamando de vândalos, arruaceiros, criminosos, bandidos, e o que mais pintar na criatividade do editor-chefe da publicação. E é por essas e outras que frequentemente estes setores reclamantes são marginalizados e hostilizados pela sociedade. Vejam as greves, por exemplo, é só começar a greve que a categoria vira um bando de vagabundos preguiçosos reclamando de barriga cheia. Qualquer setor que faz uma passeata já é alvo de "cidadãos de bem" (eu ainda vou fazer um post sobre o terrível "cidadão de bem") reclamando que eles estão atrapalhando o trânsito, que estão prejudicando quem não tem nada a ver com isso, e mais blablablá.

É chover no molhado dizer que a mídia manipula a opinião pública, e disso qualquer um que queira usar a cabeça sabe há muito tempo. Tirar a credibilidade de quem está certo e inocentar quem está errado parece ser o trabalho principal desta categoria de profissionais que se acha tão importante, necessária, e superior as demais (Bóris Casoy que o diga). Mas isso causa uma consequência mais grave: Independente das causas ou categorias defendidas, os manifestantes, diante deste cenário anti-manifestação (num dos mais "democráticos" países do mundo!) se vêem sozinhos e fragilizados, o que prejudica muito a organização e a força que seus respectivos movimentos precisam para prosperar. E sem apoio popular, qualquer causa se torna muito mais árdua de se conquistar. É aí que mora o meu ódio e desprezo pelas grandes mídias, que servem apenas a seus próprios interesses, e a quem serve a seus próprios interesses.

Então, através do maior meio de comunicação verdadeiramente democrático e representativo que a humanidade já conheceu, é que deixo minha sugestão: Boicotem os grandes meios de comunicação privados, como Globo, Veja, UOL, Folha, iG, etc. Na internet, em blogs, redes sociais e portais de notícias independentes, podemos obter informações muito mais completas, podemos compará-las, e nos tornarmos cidadãos muito mais críticos e mais úteis uns para os outros. Então, desconfiem daquilo que lhes é empurrado goela abaixo, verifiquem a consistência de tudo que lhes é dito (o que inclui o que é dito neste blog), e se tornem mais inteligentes. Um mundo melhor depende disso mais do que de qualquer outra coisa.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012



O Brasil assumiu recentemente a  6º colocação no ranking dos países mais ricos do mundo, superando o Reino Unido, mas me pergunto: que país tão rico é esse que permanece na 88º colocação na educação mundial numa quantia de 123 países? Que país é esse que não dá condições necessárias de segurança que garanta o ir e o vir da população? Que cidadania é essa que o direito de ter direito é cada vez mais para poucos? Que país é esse “tão desenvolvido” que aparece como um dos mais corruptos do mundo? Que civilização “tão educada” é esta que ainda é necessária campanhas como “jogar lixo no lixo”, “se beber não dirija”? Que país é este onde a tal riqueza é cada vez mais para poucos e onde a desigualdade sócio-econômica é uma das maiores do mundo?
Pois é Renato Russo, hoje eu entendo, que país é este? É a ________ do Brasil.

M. L. Silva

Lucro Brasil

Pode isso, Arnaldo?!

Há alguns dias circula pelo Facebook a campanha "Abaixo Lucro Brasil". A premissa é de que no Brasil nós pagamos mais caro do que em qualquer outro país do mundo por carros que são muito piores do que em qualquer país do mundo. Por exemplo, só por aqui carros 1.0 são padrão. Lá fora normalmente nem existem. O padrão de segurança dos nossos carros estão defasados em 20 anos em relação ao padrão europeu. Aqui, câmbio automático é acessório de luxo, no exterior é padrão. Aqui, Corolla é carro de executivo, lá é popular como o nosso Uno. Aliás, lá fora, esse Toyota custa R$17.900,00, bem menos que um Uno semi-novo por aqui. A carga tributária no Brasil é exorbitante, e nisso não existe absolutamente nenhuma novidade. Trágico mesmo é notar que, pelo menos dessa vez, a culpa não é  do governo. Os impostos compõe 29,7% do valor do veículo. Mas a margem de lucro dos fabricantes é que escandaliza a coisa toda. O exemplo acima é apenas um dos casos. Por exemplo, um Camaro 2SS nos EUA custa, em Reais, R$ 65.243,00, contra R$199.000,00 no Brasil. Já um Volvo S60 lá sai por R$69.687,00, contra R$169.900,00 por aqui. Então, como pode um carro x custar mais que o carro y, e ser vendido por aqui com x sendo mais barato que y? Tem coisa muito errada aí. E o que está errado é o comportamento passivo do consumidor, que lamenta o preço alto, mas paga. Historicamente, em todos os ramos, o brasileiro nunca se mobilizou para usar a melhor arma contra algo que não satisfaz: Boicote. É só parar de comprar carro 0km, que pela lei de oferta e procura, o preço vai ter que cair. E a qualidade vai ter que subir.

A pílula vermelha

Você pode escolher aceitar a verdade, e viver de acordo com ela, ou pode escolher a mentira, a ilusão, a ficção. Sua escolha não muda os fatos, mas diz muito sobre o que você é. Viver na ignorância é lamentável, mas conhecer a verdade sobre as coisas e preferir ignorá-la por ser mais fácil já denuncia muito sobre seu caráter. Diante da verdade, é nossa responsabilidade sair da nossa zona de conforto. Porque a pílula azul leva a uma vida muito mais fácil, mas é uma vida que não existe.

E todos estes conceitos são válidos para tudo na nossa vida. Não importa se você queria saber a verdade. Se você sabe, precisa agir de acordo com tal.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

DEMOcracia

Ano eleitoral, mais uma oportunidade pra fazer a gente acreditar que nosso voto é nossa única ferramenta para mudar algo. Mas... oh, wait! Que bruxaria é essa?! Não temos boas opções! Temos que escolher o menos pior, mas é tão difícil enxergar alguma diferença entre eles... Esse é o jogo do sistema, meus jovens. Não há uma verdadeira possibilidade de mudanças. Se houvesse, o sistema não permitiria. Sempre fui um ferrenho crítico do voto nulo e do "não vote!", mas cada vez mais vejo razão neles... ainda não apoio o voto nulo, é omissão e indiferença ao que está acontecendo. Mas temos que fazer nós mesmos uma opção melhor. É muito confortável falar mal dos que se candidataram, mas, embora normalmente eles tenham motivos e meios muito escusos para estarem onde estão, eles estão lá pra serem nossas opções. E nós, estamos fazendo algo para ser ou para promover uma opção melhor? Tem uma ótima frase do Lula que diz basicamente isso aqui:
Não importa qual seja o seu juízo de valor em relação ao ex-presidente, se você aprova ou repudia, esta frase não tem seu valor alterado por ter sido dita por ele. Então insisto: A mudança começa quando termina a nossa zona de conforto. Comecemos a pensar no que estamos fazendo errado, em quê estamos contribuindo para manter o status quo, e o que podemos e devemos fazer daqui pra frente. E nós vamos ter que escolher um dos caminhos. Se todos levarem ao abatedouro, é nosso dever abrir um caminho para um lugar diferente.